Quando o Uber sabe mais da sua vida amorosa que você

Tem momentos em que a tecnologia resolve ser terapeuta involuntária e entrega a verdade sem anestesia. A situação inteira parece um episódio premium de reality show urbano, onde o aplicativo vira testemunha ocular e o ciúme ganha GPS. O detalhe do motorista com tatuagem vira laudo técnico, quase um boletim de ocorrência emocional. A confiança vai embora mais rápido que corrida em tarifa dinâmica, enquanto a imaginação completa o resto do roteiro com uma criatividade que nem roteirista de novela das nove consegue acompanhar. No fim, a frase carinhosa pesa mais do que qualquer explicação lógica, porque certas palavras têm o poder de transformar paranoia em certeza absoluta.
O humor surge exatamente no exagero da leitura de sinais. Um trajeto comum vira prova irrefutável, o algoritmo vira cúmplice e o celular passa a ser inimigo íntimo. É a era em que o amor depende de notificações e o coração aprende a interpretar detalhes como se fossem mensagens criptografadas. O brasileiro, claro, responde com ironia e resignação, porque rir é mais barato do que terapia e dói menos do que discutir tarifa mínima. No fundo, fica a lição de que aplicativo nenhum está preparado para lidar com insegurança humana, e que às vezes o problema não é o destino da corrida, mas a imaginação que pegou o volante e acelerou sem freio.




