Homem vai trabalhar com meia trocada e descobrem nele um novo estilista europeu

O brasileiro já vive no modo sobrevivência faz tanto tempo que sair de casa com uma meia de cada cor virou menos um erro e mais uma declaração artística involuntária. O problema não é nem perceber tarde demais. O problema é quando alguém olha sério e pergunta se aquilo faz parte de algum “conceito moderno”. A pessoa sai de casa derrotada pela própria gaveta e volta reconhecida como visionária da moda urbana. Paris Fashion Week nenhuma consegue competir com alguém que se arrumou no escuro porque apertou o botão soneca sete vezes.
E o mais engraçado é que, no fundo, todo mundo sabe que isso acontece porque o adulto brasileiro vive cansado em níveis industriais. Tem gente que já sai no automático igual NPC de videogame. A mente tá tão longe que às vezes o cidadão coloca a camiseta do avesso, esquece o crachá na geladeira e ainda acha normal. A meia trocada é só o capítulo mais humilde da tragédia cotidiana. E sempre aparece um especialista em moda querendo transformar o acidente em tendência, como se o cidadão tivesse acordado pensando: “Hoje vou transmitir uma dualidade cromática através dos pés”. Não, irmão. A pessoa só queria sobreviver até o café da manhã.





