CNH vencida e a crise de identidade mais burocrática do Brasil

CNH vencida e a crise de identidade mais burocrática do Brasil

Tem coisa que só a burocracia brasileira consegue explicar sem explicar nada. A CNH serve pra abrir conta, entrar em prédio, retirar encomenda, provar que você é você desde 1998… mas venceu a data e pronto: aparentemente sua identidade evapora junto com o prazo. A lógica é maravilhosa. Para dirigir, faz sentido renovar, afinal ninguém quer descobrir no trânsito que esqueceu como usa o freio. Agora, para provar quem você é, parece que a validade também apaga sua existência. Documento vencido vira quase um amuleto sem poderes.

É como se o sistema dissesse que, até ontem, você era oficialmente você mesmo. Hoje, infelizmente, talvez seja uma versão pirata. O CPF continua o mesmo, a foto continua a mesma, a cara de cansado continua a mesma, mas a data passou e pronto, crise de identidade instaurada. Dá a impressão de que, se demorar muito pra renovar, você corre o risco de virar um personagem desbloqueável da própria vida. No Brasil, não basta existir, tem que estar dentro do prazo.

A dívida que virou troco e deixou até a calculadora em choque

A dívida que virou troco e deixou até a calculadora em choque

Tem promoção que é tão absurda que a gente desconfia até da própria matemática. Uma dívida de quase cinquenta mil virar trocado de padaria é praticamente milagre financeiro reconhecido pelo Vaticano. Isso não é desconto, é anistia econômica com trilha sonora de final feliz. O banco olha praquele valor gigantesco e resolve aplicar um “black friday do arrependimento”. Noventa e nove por cento de desconto não é negociação, é plot twist de novela das nove.

E ainda existe a dúvida se vale a pena. Brasileiro é tão traumatizado que, mesmo diante de um milagre bancário, ainda pergunta se não tem pegadinha escondida em letras microscópicas tamanho formiga. A mente já começa a imaginar juros secretos, taxa de respiração, imposto sobre felicidade repentina. Mas a verdade é que sair de quase cinquenta mil pra cento e quarenta reais é o equivalente financeiro de ganhar na loteria sem precisar jogar. Se isso não vale a pena, então nada mais faz sentido nesse planeta. É o tipo de oferta que faz até calculadora chorar de emoção.

Tomei remédio pra dormir e sonhei que estava com insônia, o cérebro brasileiro não tem botão off

Tomei remédio pra dormir e sonhei que estava com insônia, o cérebro brasileiro não tem botão off

Tem coisa mais brasileira do que tomar remédio pra dormir e ainda arrumar tempo pra sofrer por não estar dormindo? A mente da pessoa vira uma reunião de condomínio às três da manhã. O zolpidem entra em campo, promete silêncio, luz apagada e trilha sonora de spa. A cabeça responde com um TED Talk interno sobre produtividade, decisões da vida e teorias que ninguém pediu. O melhor é o drama consciente: a própria pessoa preocupada com o perigo de não dormir, enquanto aparentemente está dormindo melhor que bebê depois do almoço. O cérebro simplesmente decidiu brincar de Inception versão boleto.

E o auge da ironia é descobrir que passou a madrugada inteira sonhando que estava acordada. Insônia em modo fake news. A mente criou um reality show chamado “Dormindo e reclamando ao mesmo tempo”. É o nível máximo de ansiedade gourmet: até o descanso vem com roteiro, plot twist e figurino de palhaço no final. No fundo, não é falta de sono, é excesso de imaginação com Wi-Fi liberado. O brasileiro não dorme, ele produz conteúdo mental premium até inconsciente. E ainda acorda cansado, porque até no sonho estava ocupado reclamando.

Manual prático de como admirar filhos e problemas só à distância

Manual prático de como admirar filhos e problemas só à distância

A sabedoria popular brasileira ensina que criança é igual visita: na casa dos outros é sempre mais agradável. Todo mundo acha lindo, cheiroso, educado, mas basta passar duas horinhas convivendo de verdade para descobrir que o pacote completo vem com choro, birra, bagunça e uma energia infinita que nenhum adulto tem mais. Aí surge essa filosofia moderna da madrasta prática, aquela que aprecia de longe, elogia por educação e agradece todos os dias por não ter sido ela que inventou a ideia de ter herdeiro. Porque no discurso todo mundo quer formar família, construir legado, plantar árvore e escrever livro. Na prática, o povo só quer mesmo é dormir até tarde e gastar dinheiro com lanche.

E a lógica segue firme para outros departamentos da vida. Tem gente que trata relacionamento igual empréstimo de ferramenta: é bom enquanto está novo, funcionando e sem dar dor de cabeça. Começou a exigir manutenção, atenção e paciência, já vem a vontade de devolver com nota fiscal e tudo. No fundo, o sonho secreto de muita gente é ter responsabilidades em modo teste grátis, com direito a cancelamento sem multa. Vida adulta com botão de desistir seria um sucesso absoluto.

A atrizteza da família e o currículo mais sincero da internet

A atrizteza da família e o currículo mais sincero da internet

O mundo das conversas virtuais é um verdadeiro palco de surpresas. A pessoa começa toda básica, perguntando idade, chamando de xuxu, criando aquele clima de entrevista de emprego romântica. Tudo muito padrão, roteiro clássico de paquera online: pergunta o que faz da vida, responde que estuda e trabalha, joga um elogio educado e segue o protocolo. Até aí, nada demais, parece mais um diálogo normal entre dois jovens cheios de sonhos e boletos. Mas a internet tem esse dom mágico de transformar qualquer conversa inocente num momento histórico digno de meme.

De repente surge a revelação mais sincera e genial possível: “atrizteza da família”. Pronto, o currículo artístico ganhou uma nova categoria oficial. Porque não basta ser atriz, tem que carregar o peso dramático de ser o orgulho alternativo dos parentes, aquela pessoa que todo almoço de domingo alguém pergunta quando vai arrumar um emprego “de verdade”. É praticamente um cargo hereditário, misto de comediante involuntária e protagonista de novela mexicana familiar. No fundo, todo mundo conhece alguém assim, que luta pelos sonhos enquanto a família luta pra entender qual é o sonho. E o melhor é que a própria pessoa já assume o título com humor, porque se não rir da própria desgraça profissional, vai chorar no camarim imaginário.

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