O método brasileiro de cozinhar ovo: esquecer e confiar no universo

Existe basicamente dois tipos de pessoas no mundo: as que usam cronômetro para cozinhar ovo e as que confiam cegamente na intervenção divina. O primeiro grupo sabe exatamente quantos minutos faltam para a gema ficar perfeita. O segundo grupo joga o ovo na panela, vai resolver a vida, esquece completamente da existência dele e, em algum momento aleatório do dia, tem uma revelação gastronômica. É quase um método filosófico. Não existe relógio, existe destino. Se o ovo ficou bom, foi talento. Se ficou parecendo uma pedra de construção, foi aprendizado.
O brasileiro médio tem uma relação especial com a cozinha. A receita diz oito minutos, mas a confiança diz “depois eu vejo”. O problema é que esse mesmo raciocínio costuma ser usado para boleto, imposto de renda e consulta médica. O ovo acaba virando um símbolo nacional da procrastinação. Não é falta de organização, é um sistema baseado em lembranças espontâneas. A ciência chama de esquecimento. O brasileiro chama de multitarefa. E, convenhamos, existe uma emoção única em descobrir o estado do ovo só no momento da verdade. É praticamente uma caixa misteriosa culinária. Pode sair um ovo cozido perfeito ou um objeto capaz de sobreviver a uma queda de três andares. Em ambos os casos, a experiência está garantida.





