A selfie que se recusou a ser esquecida

A galeria do celular é uma entidade misteriosa que parece funcionar com inteligência própria. Entre milhares de fotos perfeitamente aceitáveis, ela sempre encontra exatamente aquela imagem que deveria ter desaparecido da história da humanidade. É impressionante como as fotos boas ficam escondidas em alguma dimensão paralela, enquanto as mais constrangedoras surgem na velocidade da luz sempre que existe uma plateia por perto.
Existe uma lei não escrita da tecnologia que diz que toda selfie vergonhosa ganha uma espécie de imunidade digital. Não importa quantas limpezas sejam feitas, quantas promessas sejam feitas para apagar arquivos inúteis ou quantas vezes alguém jure começar uma organização séria das fotos. Aquela imagem específica permanece firme, forte e pronta para destruir qualquer reputação em questão de segundos. É praticamente um funcionário público da galeria: ninguém sabe exatamente como chegou lá, mas também ninguém consegue tirar.
O mais curioso é que essas fotos nunca aparecem quando a pessoa está sozinha. Elas aguardam o momento perfeito para causar o máximo de dano emocional possível. Talvez a inteligência artificial não esteja dominando o mundo. Talvez ela já tenha começado e esteja apenas administrando galerias de celular. Porque não existe explicação racional para uma foto horrível aparecer justamente quando alguém queria mostrar algo completamente diferente.





