A corrida mais inútil da vida acontece quando o ônibus é o errado

Existe um esporte olímpico que todo brasileiro já praticou pelo menos uma vez: a corrida desesperada atrás do ônibus. Nessa modalidade, a pessoa desenvolve uma velocidade que nunca aparece na academia, ignora qualquer dignidade e acredita que cinco segundos podem mudar completamente o destino da humanidade. O problema é que a adrenalina desliga metade do cérebro. Depois da maratona improvisada, vem a descoberta de que o ônibus era da linha errada. Todo aquele esforço serviu apenas para transformar o passageiro em atração gratuita do transporte público. O pior não é nem o cansaço. É tentar parecer que entrou naquele ônibus por livre e espontânea vontade, como se tudo estivesse sob absoluto controle desde o começo.
O transporte coletivo também tem um talento especial para testar a autoestima das pessoas. O ônibus certo demora quarenta minutos para aparecer, mas o errado surge exatamente quando você olha para o lado. E ele sempre passa vazio, como quem faz questão de provocar. Nessas horas, o orgulho pega carona em outro veículo e desaparece. O coração ainda está batendo no ritmo de uma final de campeonato, enquanto a mente tenta convencer o corpo de que correr feito um atleta profissional por causa da linha errada foi apenas um treinamento funcional gratuito. No fim, todo mundo que depende de ônibus acumula uma coleção dessas pequenas derrotas cotidianas. São histórias que, na hora, dão vontade de desaparecer, mas depois viram motivo de risada. Afinal, se o brasileiro não rir dos próprios perrengues, o ponto final acaba chegando antes da paciência.





