O dia em que a porta estava certa e eu completamente errado

O dia em que a porta estava certa e eu completamente errado

Existe um tipo de distração que não pode mais ser chamada de simples falta de atenção. É praticamente um esporte olímpico da vergonha alheia. Quem nunca passou um tempo brigando com uma porta, convencido de que a fechadura resolveu declarar independência, provavelmente ainda não desbloqueou essa fase da vida adulta. O cérebro simplesmente entra no modo econômico, desliga metade das funções e entrega o controle para o piloto automático. O resultado é um cidadão jurando que foi vítima de uma porta defeituosa, quando na verdade o único defeito era a localização dele. O pior é que a confiança continua intacta durante vários minutos. A pessoa olha para a chave, culpa o chaveiro, culpa a fechadura, culpa o fabricante e, se deixar, culpa até Mercúrio retrógrado antes de cogitar que talvez esteja na casa errada.

O brasileiro tem um talento especial para transformar pequenos momentos de distração em lembranças que aparecem na cabeça exatamente na hora de dormir. É aquele tipo de memória que chega sem convite e faz você querer mudar de cidade por pura dignidade. O vizinho nem precisa instalar câmera de segurança, porque a maior ameaça já é alguém tentando entrar na casa errada com toda a convicção do mundo. Nessas horas, o orgulho sai pela janela, a vergonha entra pela porta certa e a única conclusão possível é que o GPS do corpo funciona muito melhor que o GPS da mente. Afinal, às vezes a chave está perfeita, a fechadura também… o único detalhe fora do lugar é o dono da chave.

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