Quando o pão passa do ponto e vira carvão no café da manhã

Quando o pão passa do ponto e vira carvão no café da manhã

Tem uma coisa que o brasileiro conhece bem: a capacidade de transformar um simples pão em patrimônio histórico. O cidadão coloca o pão na torradeira pensando em tomar aquele café tranquilo, mas aparentemente o cérebro decide abrir uma reunião extraordinária sobre assuntos completamente inúteis. Quando a memória finalmente resolve colaborar, o pão já evoluiu para carvão vegetal e ganhou potencial para ser usado em uma churrasqueira. O pior nem é queimar o pão. O verdadeiro sofrimento é lembrar que aquele era o último e perceber que agora o café da manhã virou uma prova de resistência.

E é justamente nessa hora que entra o famoso princípio brasileiro de não desperdiçar comida. Porque jogar fora um pão queimado é fácil; difícil é aceitar que você perdeu dinheiro por pura distração. Aí começa a filosofia: talvez não esteja tão queimado, talvez seja só uma crocância mais avançada, talvez com manteiga melhore. Quando chega nesse nível, já não é mais café da manhã, é arqueologia gastronômica. O pão deixa de ser alimento e passa a ser evidência material de que a mente humana consegue esquecer uma torradeira enquanto pensa em absolutamente qualquer outra coisa. No fim, fica a certeza de que a fome transforma até carvão em refeição gourmet.

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