O sorvete fitness que levou a dieta longe demais

Chegou um momento em que algumas sobremesas estão tão preocupadas em não ofender ninguém que esqueceram um pequeno detalhe: ter gosto de sobremesa. O cardápio começa anunciando “sem açúcar, sem ovo, sem lactose, sem glúten, vegano e sem calorias”, e a expectativa vai lá em cima. Quando a pessoa olha o pote e percebe que o ingrediente principal parece ter saído diretamente da forma de gelo, bate aquela sensação de que a criatividade resolveu tirar férias. Daqui a pouco vão lançar o sorvete sem sabor, sem textura e sem vontade de existir. O marketing faz um esforço digno de Oscar para convencer que gelo gourmet é uma revolução gastronômica. O brasileiro até tenta acompanhar as tendências fitness, mas existe um limite entre alimentação saudável e pagar para mastigar cubos de água congelada.
O mais engraçado é que sempre aparece alguém dizendo que o importante é a experiência. Experiência de quê? De descobrir que o freezer da geladeira de casa oferece exatamente o mesmo produto sem fila e de graça? A moda do “fit” já virou uma competição para ver quem consegue retirar mais ingredientes da receita original. No ritmo em que as coisas andam, o próximo lançamento será um prato vazio com a descrição “sem carboidrato, sem gordura, sem sódio e sem louça para lavar”. O brasileiro gosta de cuidar da saúde, mas também gosta de sentir que está comendo alguma coisa além de esperança. No fim, a maior caloria desse sorvete é a coragem necessária para pedir outra bola acreditando que, desta vez, talvez tenha aparecido um sabor escondido no meio do gelo.





